Resultados positivos de CA125 para mulheres “sintomáticas” estão errados na maior parte do tempo

| 04 out 2021 | ID: poems-44337

Área Temática:

Questão Clinica:

Qual é a precisão diagnóstica do CA-125 para mulheres com suspeita de câncer de ovário na Atenção Primária à Saúde?
Resposta Baseada em Evidência:

Como exame complementar, de cada 1000 mulheres com sintomas inespecíficos (como dor ou distensão abdominal e mudança no ritmo intestinal) que fizeram o CA125, 9 tinham câncer de ovário. Esse número foi de 2 entre as mulheres com CA125 negativo, e 101 entre aquelas com um resultado positivo. Em outras palavras, 89,9% das mulheres com resultado positivo não tinham câncer de ovário. Além disso, 20% das mulheres com mais de 50 anos com um resultado de CA125 positivo receberão diagnóstico de câncer não ovário (não necessariamente ginecológico) nos 12 meses subsequentes.

Alertas:

Contexto:

Segundo os autores do estudo, CA125 é muito utilizado internacionalmente na investigação de câncer de ovário em mulheres que apresentam sintomas suspeito. Contudo, a maioria dos estudos que avaliou a performance clínica deste exame ocorreu em serviços especializados, havendo poucos trabalhos realizados no contexto da Atenção Primária à Saúde.

Este foi um estudo de coorte retrospectivo usando bancos de dados clínicos robustos representativos da população do Reino Unido, sendo selecionadas as mulheres que realizaram dosagem de CA125 entre 2011 e 2014. Como não há programa nacional de rastreamento de câncer de ovário no Reino Unido, os autores consideraram todas as mulheres com dosagem de CA125 como sendo sintomáticas e suspeitas para câncer de ovário (possível fonte de viés no estudo). Foram incluídas no estudo 50,780 mulheres, com incidência de câncer de ovário de 0,9%, sendo 3 vezes maior nas mulheres acima de 50 anos.

O desempenho clínico do CA125 nesse contexto foi: valor preditivo negativo = 99,8% (95% CI 99.7–99.8); valor preditivo positivo = 10,1% (95% CI 9.1–11.2); sensibilidade = 77.0% (95% CI 72.8–80.8%); e especificidade = 93.8% (95% CI 93.6–94.0).

Alguns outros achados chamam a atenção e talvez importem para o médico de família: a incidência de câncer não ovariano foi de 2,6%, sendo de 2,0% e 12,3% para valores de CA125 inferiores e superiores a 35 U/mL; e quase metade dos pacientes com diagnóstico de câncer de pâncreas e de pulmão na coorte apresentava níveis de CA125 ≥35 U/ml.

Referencia

Funston G, Hamilton W, Abel G, Crosbie EJ, Rous B, Walter FM. The diagnostic performance of CA125 for the detection of ovarian and non-ovarian cancer in primary care: A population-based cohort study. PLoS Med 2020;17(10):e1003295. Disponível em: https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1003295

Comentários:

Os resultados deste estudo são relevantes para o médico de família, mesmo considerando a não existência de programa de rastreamento nacional para câncer de ovário no Brasil. Os sinais e sintomas inespecíficos mais comuns relatados pelas mulheres dessa coorte (dor e distensão abdominal, mudança no ritmo intestinal, fadiga e dor pélvica) são comuns na atenção primária e podem ser um desafio diagnóstico para o clínico assistente. Dois achados deste estudo em especial devem ter a atenção dos médicos de família: CA125 negativo nessas mulheres praticamente descarta câncer de ovário; e altos níveis de CA125 nessas mulheres deve alertar para a possibilidade de outros tipos de neoplasia, em especial pâncreas e pulmão. Não há, contudo, dados suficientes para recomendarmos o rastreamento destes cânceres em mulheres com CA125≥35 U/ml no contexto da atenção primária.

Data de acesso:

Endereço:

https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1003295

Número, Data e Autoria:

Thiago Dias Sarti, setembro 2021